FERNANDA ABREU por DJ MEME

Data estrelar: Meados de outubro de 1989. Final de show na extinta Jazzmania, em Ipanema, onde dei a sorte de assistir a um pocket show histórico que encerrava de vez o ciclo artístico da cantora-bailarina-darling-carioca, conhecida como “Fernandinha da Blitz”, e marcava a entrada em cena triunfal da “Fernandona do Baile”, ou, para todo o sempre, Fernanda Abreu.

Segue aqui o motivo de contar essa história: A boa e velha malandragem carioca resolveu naquele dia um dilema importante do show e que vinha a pontuar a carreira da cantora para sempre: Fernanda, ainda sem um repertório próprio, apostou em mostrar suas habilidades de front-woman num show de DISCO MUSIC! O set list foi todo feito com covers de hits de pista dos anos 70 e (pasmem!) mesmo sem repertório, Fernanda convenceu todas as cinco gravadoras presentes. A EMI-Odeon, de caneta em punho, levou a artista ali mesmo, onde ela permaneceu por muitos anos. Lá lançou seu primeiro álbum, em 1990, o ano seguinte ao famoso show, até sair da gravadora ao criar o seu próprio selo, GAROTA SANGUE BOM, em 2004.

A matemática diz: Fernanda Abreu, bailarina desde menina, é amiga da pista, e quem é da pista também é naturalmente conectada com DJs. E é aqui que a nossa longa relação começa a fazer sentido.

Conheci Fernanda exatamente no final daquele show em 89 onde, ao descerem do palco, pedi ao grande amigo Fabio Fonseca (seu tecladista no show) para ser apresentado a ela. Foi mais ou menos assim:

-“Fernanda, muito prazer. Eu confesso que não sabia o que esperar, mas adorei o show e a surpresa do repertório que obviamente falou alto pra mim”.

-“DJ Meme, o prazer é meu. Sou sua fã. Ouço seu programa de rádio sempre e adoro”.

Pronto, clicou! A admiração mútua e o amor pela mesma música fizeram nascer ali uma longa e progressiva amizade. Desde então, ela sempre conta com a minha contribuição em seus álbuns. No primeiro disco, “SLA RADICAL DISCO DANCE”, eu programei minha bateria AKAI MPC60 novinha na música “Space Sound to Dance”. No segundo disco, “SLA 2: BE SAMPLE”, remixei “Hello Baby” e “Rio 40 graus”. No terceiro disco, “DA LATA”, produzi a faixa “Babilônia Rock”, homenageando nossos ídolos em comum, Lincoln Olivetti e Robson Jorge. Em seu quarto álbum, “RAIO-X” ela aceitou uma ideia que eu vinha soprando em seu ouvido há alguns anos. E orgulhosamente recebi salvo-conduto para redesenhar nas medidas dela a tal faixa que eu sempre achei que cabia a Fernanda desde sempre: “Kátia Flávia, a Godiva de Irajá”, até hoje um dos seus maiores hits. (NR*: A gravação original é de 1987, do seu notável parceiro, Fausto Fawcett). No quinto disco, “ENTIDADE URBANA”, lá estava minha programação de bateria e samples em “Zona Norte – Zona Sul”. Agora chegamos juntos novamente ao mais recente álbum, “AMOR GERAL”, no qual eu não pude estar 100% presente, mas cedi loops de bateria para a faixa “Deliciosamente” e segurei sua mão do início ao final do disco, servindo sempre como um ouvido amigo (melhor definição não há) durante toda a concepção do projeto, desde suas composições iniciais, dezenas de escolhas e decisões ao longo do processo até a mixagem final, em que ela me enviava faixa a faixa pelo email enquanto eu estava longe, tocando na Itália.

Durante todos esses anos de convivência, percebi com clareza que Fernanda sempre apostou fichas nos DJs, criando com eles um laço carinhoso de convivência, harmonia e respeito. Ela jamais os esquece. Haviam sempre frases comuns que se repetiam com certa frequência:

– “Meme, acha que os DJs vão entender essa?” ou – “Meme, precisamos tirar um som que bata forte no peito pra quando chegar na mão dos DJs não soar distante das internacionais” ou – “Vamos chamar alguns DJs para darem opinião?” ou ainda “Pensei em fazer uma festa de lançamento só com DJs”. Sorte nossa tanto carinho.

Corta pra 2020.

Depois de 30 anos – e para comemorar tanto amor entre Fernanda e os DJs – a ideia desse ano veio como uma cereja no bolo:

– “Meme, quero que os DJs sejam responsáveis pela minha música neste ano de comemoração. Quero fazer o melhor disco de remixes já produzido no Brasil. Me ajuda?”.

E assim foi! Saímos para almoçar no Entrecôte do Shopping da Gávea e enquanto traçávamos um contra-filé com salada, juntamos uma lista de músicas que mereciam um carimbo novo e começamos ali mesmo a ligar para DJs/produtores que imaginávamos certos para cada missão. Fernanda ligou pessoalmente para cada um deles e o entusiasmo foi geral. Todo mundo topou de cara. A cada remix que chegava, tínhamos mais certeza de que havíamos escolhido o caminho certo. Fizemos, sem dúvida, o que ela queria: O melhor disco de remixes já produzido no Brasil! E eu posso dizer isso com segurança porque participei de todos até hoje.

Fernanda, catedrática em palco e experiente como poucos, sabe bem como conduzir um baile. É bom a gente lembrar que o estopim responsável pelo estouro de toda a geração pop dos anos 80 – que compreende Paralamas, Legião, Lulu Santos, Kid Abelha ou Capital Inicial – foi a banda BLITZ, ou seja… Fernanda já estava nos palcos bem antes de todos. Aqui no Rio de Janeiro, nós temos uma gíria bem específica para definir uma pessoa com muita experiência: “Fulano tem vários anos de baile, rapaz!!”.

Well, seria romantismo demais dizer que Fernanda tem pela frente mais 30 anos de baile, mas, por outro lado, isso nem importa porque, para nós DJs, o seu legado eterno já é uma lenda.